O Artista
Guto Godoy




Acreditamos no nosso trabalho como um serviço ministerial ao Povo de Deus. Colocamos à disposição das comunidades um trabalho que se entende como prolongamento da ação litúrgica realizada em cada celebração.
A trajetória
Nasci em uma família profundamente cristã e descobri desde cedo que a vida é um dom recebido gratuitamente e que a melhor forma de honrar essa existência é colocando-a a serviço.
De meus pais e minha tia com quem convivi na infância e na juventude, recebi a consciência de uma fé que é relacional, não individualista. Todo encontro pessoal com Cristo é precedido por uma profissão de fé comunitária no batismo!
Cresci circundado pela vida cristã vendo no testemunho dos meus, o exemplo de uma existência que se sabe preenchida pela relação com Deus e com os irmãos. Na Comunidade São José, em Palmital, vivi meu primeiro amor, o serviço ao Altar e o canto litúrgico e, desde então, busco fazer da celebração dos Mistérios, o eixo da minha existência.
Em 2010 tive meu primeiro encontro com aquele que seria meu grande mestre, Claudio Pastro. Descobri na sua obra, na sua busca “ad fontes”, na essencialidade de seus traços e na transparência de suas cores, na harmonia dos espaços por ele concebidos, um farol para minha própria reflexão e produção artística. Frequentando seu ateliê na bela rua Itapicuru, aprendi o desenho iconográfico, a pintura à tempera, a escultura e o projeto do espaço.
Além disso, quantas belas lições de vida cristã recebi desse grande amigo. Me lembro que certa vez ele me disse: “Guto, se você quer ser artista sacro, lembre-se de uma coisa: cada vez que entro no ateliê, levo comigo os joelhos gastos de oração!”. Ou seja, fazer Arte Sacra é, antes de tudo, viver como uma constante prece de louvor e gratidão a Deus pela sua própria glória. Também com Pastro tive meu primeiro contato com a espiritualidade beneditina. Contato esse que estreitou-se, posteriormente, no período de estudos no Pontifício Ateneo Sant’Anselmo, em Roma.
Pude experimentar do ritmo da vida monástica, dividindo os momentos de estudo e pesquisa, com a Liturgia das Horas e a Lectio Divina. Pude também experimentar um contato maior com a Regra de São Bento, descobrindo nela uma “escola de serviço do Senhor”.
Nas aulas do Pontifício Instituto Litúrgico, tive a oportunidade de receber valiosas lições de grandes liturgistas, como o brasileiro Dom Jerônimo Pereira, OSB e os Italianos Goffredo Boselli e Andrea Grillo, além de beber nas fontes litúrgicas e me aprofundar na pesquisa da teologia litúrgica na exuberante biblioteca do Ateneo.
Neste meu período romano, ainda tive a alegria de estabelecer uma grande amizade com o mestre iconógrafo Ivan Polverari além de arquitetos de diversas partes da Itália. Além disso, o mesmo período me possibilitou um mergulho nas fontes da Arte Sacra cristã: em Roma, pude me aproximar a arte paleocristã, descobrindo nela uma linguagem eternamente nova.
No sul da Italia, em Ravenna e na Grécia, pude estreitar os laços com a arte bizantina, recebendo dela a beleza do ícone oriental.
Na Catalunha, na Lombardia e na Toscana, aproximei-me do Românico e descobri na firmeza da pedra e na força da sua arquitetura, a Cidade Santa que desce do céu (cf. Ap 21,2).
No Brasil, minha grande admiração se voltam para as obras de Cândido Portinari, Fulvio Pennacchi e Emeric Marcier. Em todos eles encontro um referencial seja na construção da imagem como veículo da linguagem, quanto da busca por uma obra que expresse as características tão próprias de nossa terra.
Acredito na Arte Sacra como um ministério, um serviço à Igreja, em decorrência da graça batismal recebida. Tenho com constância buscado a essencialidade da linha e da cor, a sobriedade do espaço que comunica o Absoluto, a beleza que fala por si mesma, sem necessidade de modismos, cenografias e os “neos” que se caracterizam mais por um saudosismo e romantização do passado e que em nada celebram o Mistério de Cristo no hoje de nossa história.
Me considero um fruto dos frutos do Concílio Vaticano II e firmo minha busca e meu ministério no trabalho tão frutífero que os grandes homens e mulheres do século passado empreenderam para a renovação da Igreja e da Sagrada Liturgia. Tenho consciência que do Rito é que decorre o meu trabalho e a ele retorna, como serviço ministerial.
Guto Godoy
A forma nos revela a natureza das coisas!
Dom Odo Casel
Conversemos sobre sua visão para uma nova peça, seja para um espaço sagrado ou um acervo particular.
